O Labirinto

No labirinto sombrio, ouvi pronunciar o meu nome.
E levantei-me, ultrapassei o muro da abstracção e tacteei as pedras da construção inacabada.
Ouvia-se apenas o silêncio, e o pavor desse eco informe levou-me a procurar a saída com mais determinação.
E andei perdido pelos mil caminhos de perdição, sem pensar em desistir, com os dentes cerrados e uma espada no coração. E senti no corpo o cansaço de milhares de passadas gastas, mas a vontade de desvendar o enigma daquele murmúrio reforçou a amplitude dos meus passos, e continuei a procurar, já sem sentir, já sem pensar, como uma pedra a rolar por uma ribanceira
E acabei por parar. Num monte de entulho, num dos muros do labirinto, estava um rato sujo e nauseabundo, certamente também ele perdido
mas a minha presença encheu-o de alegria, pois o bicho poisou em mim a ternura do seu olhar.
E peguei nele, ao princípio com asco, logo a seguir com carinho, e os meus dedos afagaram-lhe ternamente a cabecita peluda.
E, facto curioso, o seu pelo parecia-me mais sedoso e macio. Pus-me então a pensar, e compreendi que fora um guincho seu que, apelo surdo, ressoando pelos mil muros da construção, me tinha dado a impressão dum chamamento longínquo. E olhei de novo para o animalzito, que procurava agora o abrigo das minhas mãos, e pensei na distância que percorri e senti-me feliz por ter andado tanto, e nem a fadiga me impediu que rasgar os lábios num sorriso.
Então, num clarão, tudo se desmoronou à minha volta, dentro e fora de mim, e quando consegui reabrir os olhos não vi as paredes mudas da construção, nem sequer os seus destroços empoeirados, e percebi que estava livre, livre livre e comigo, partilhando da minha alegria, estava o ratinho, que me lambia ternamente as mãos
E sentei-me, gozando o prazer da brisa suave que me ondulava o cabelo, tendo, a meu lado, o ratinho
Lisboa, 25/9/79
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