Uma História Muito Simples

 

images/image11.gif E estando eu a pensar, em sonhos te via e te tocava, com a minha mente sentia-te estremecer ao contacto ardente e indiável, e a expressão da tua felicidade foi a paga mais que suficiente da minha audácia, e quando eu, em êxtase,
te abandonei o corpo, tu continuaste sentindo-me, sem saberes que o Amor que te consome é um poço sem fundo.

Então eu rio de satisfação, e face ao teu espanto dou-te a entender, com um sorriso muito falador, que acabaste de me Amar.

E então saíste do teu torpor, e deste-me a mão, que eu acariciei só eu sei com que ternura, quase com devoção. E então não quisemos mais abrir os olhos, pois o nosso mundo interior, íntimo dos dois, atraía-nos mais que tudo.

E já não se ouviam os ruídos dos escapes livres dos profissionais do abuso, nem as discussões mais psicadélicas que necessárias dos transeuntes enlouquecidos pela vertigem da sua própria civilização, images/image12.gife nem o grito de agonia, quiçá de libertação, dum drogado na esquina pútrida nos fez desligar o elo que nos unia.

Só mais tarde, muito mais tarde, é que, já saciados da nossa sede, ainda que provisoriamente, abrimos a janela e escancarámos a porta ao mundo. E já não nos enjoava tanto o cheiro acre do asfalto, pois, perto de nós, um rosmaninho exalava o seu aroma suave e solitário…

 

Lisboa, 2/8/79
(Poema made in "Montra", num dia de ócio,
como outro qualquer dia de Agosto)


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