Poema Sentido

Escuto o som do silêncio,
Oiço a queda do tempo,
E o murmúrio de recordações apressadas
Que não hesitam em abandonar
As grutas sombrias do Esquecimento.
E o arfar da minha respiração acompanha o gesto sincopado de novas memórias em formação, e por vezes lanço um adeus saudoso a algumas partes desse tempo fossilizado que tão fundo me tocam, por vezes não retenho um sorriso ligeiro e intemporal, por vezes deixo o corpo ser percorrido por um espasmo de alegria, por vezes simplesmente não me manifesto.
E o rodar choroso da charrua atrai-me a atenção. O meu pensamento paira sobre o boi avantajado que, bem guarnecido, me olha desconfiado; a saudação breve e plena de vigor do camponês, que dá lições de sinceridade e cortesia aos ignorantes maneirismos das classes "educadas".
E este contacto com a vitalidade da Natureza leva-me a abrir o espírito, porque aqui a natureza não é artificial, porque aqui a erva que cresce é verde, porque aqui, enfim, há objectos em vez de sombras.
E hoje sinto-me liberto, livre para poder pensar, reflectir, e, principalmente, Sentir. Em paz, em harmonia, em comunhão. Aqui não há pedras, bichos ou plantas. Há sim, e principalmente, um pouco de mim neles todos, e uma saudação sincera e silenciosa entre seres irmanados pela alegria de Viver.

Torrozelo, 10/8/79
Todos os direitos reservados. Copyright: António M. Mira, 2000-2004
Nenhuma parte pode ser reproduzida sem a autorização do autor
E-mail: a-mira@mail.telepac.pt