Impressões
É um gato que olha, é uma velha que fala, é uma vida contada, é um olhar esguio, uma mensagem que fica, um sorriso sentido, uma luz que irradia, uma saudade que nos toca e que teima em ficar.
E é o Sol, é a árvore, a pedra, a rocha, o calhau, e é o pássaro, a formiga e o canto da cigarra, e o murmúrio da árvore, do arbusto, da erva e do vento.
E depois é o silêncio, e finalmente o orgasmo da luz, do som, e da cor. E o tempo teima em passar. E depois é o despertar, o lembrar, o partir e o não-sentir, a modorra de sempre, a chatice do dia-a-dia, a ignorância patológica do quotidiano.
Paredes de pedra, paredes de cal. Casas novas, casas velhas, casas que não são casas, casas que não são lares. Um grupo ruidoso de crianças alegres de Viver, o gesto tímido dum velho cão abandonado, o tom longínquo da banda. As vozes exaltadas do Café, o vinho rubro e suado das tabernas, o mexerico costumeiro das vizinhas e a algazarra dos miúdos.
E são canecas a sair, matraquilhos a bater, risos a forjar, gente a falar, dinheiro a entrar, alegria a vender. E é o fim. Restam as lembranças e a vivacidade dos gestos vividos, é uma Vida a formar-se, é um tema a criar-se, é um jovem a amadurecer.

Torrozelo, 25/9/79
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