Brecha no Muro
Olhei-a e, encarando-a, interessei-me por ela. Toquei-lhe, primeiro ao de leve, receosamente; depois, com mais segurança, tacteei-a e senti-a tremer sob o tépido impacto das minhas mãos nervosas e inquisidoras.
Encarei-a de frente, sem baixar os olhos, sem divagar, tentando descobrir a lógica desse instante e então sem ruído, o material de que era feita começou a ceder a uma imensa força interior, e ela começou a desfazer-se, sem sorrir, sem um gemido, sem ruído - o que me encheu de horror!
E então abracei-a, envolvi-a na minha carne, tentando salvá-la. Do quê? Não sabia, não queria saber, apertei com a força do desespero o seu corpo lascado, lutei, lutei com os dentes cerrados e a alma a descoberto, e num lance de inconformismo tentei comunicar-lhe toda a minha energia espiritual, toda a minha ânsia de lutar, de Viver mas ela não correspondeu ao meu apelo mudo, e o seu corpo quedou-se frio e insensível, sem movimento, sem uma palpitação sequer que me desse qualquer Esperança.
E era-lhe suficiente sorrir, Sorrir apenas, para eu dar valor a esta luta irracional e abstracta, para eu, mesmo derrotado, sair vencedor. Mas assim Gritei de raiva, de desespero, de ódio, de tristeza, e nem procurei reunir os pedaços dispersos pelo pavimento. Só sobrara o pedestal, que de resto não me suscitava qualquer interesse.
E olhei de novo em frente, desta vez sem receio, sem ódio, sem emoção. E, imperceptivelmente, os meus menbros foram adquirindo rigidez, e, sem sobressalto, tomei o lugar da estátua quebrada. Mas agora tratava-se de mármore cinzelado, e não de pedra rústica.
Só então me apercebi que já não ouvia o canto dos pássaros, e que as cores do arco-íris me encadeavam a vista - e desviei o olhar. Apenas ouvia, distante e intranscendente, o uivo dos lobos.
Ergui o olhar e vi a pomba agonizar nas garras inflexíveis do açor. Olhei para baixo e vi os restos putrefactos da estátua partida. O Sol acabava de se pôr, e, nos museus, as figuras dos quadros voltavam às molduras.
Einstein compunha fórmulas, os computadores trabalhavam, e a Matemática progredia.
E eu perderia, perderia para sempre, se, Compreendendo, não fosse capaz de chorar.

Lisboa, 25/10/78
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