O Cristal
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O cristal!
Brilha, reluz, irradia.
E provoca olhos arregalados,
tremores ligeiros, avidez sem paixão.
Como é grande e valioso, este grande diamante lapidado de mil facetas, que se mantém, provocador e distante, tal mulher fascinante e impossível, na sua arrogância de ídolo idolatrado!
Que pensará ele, no fundo de si mesmo, de toda esta multidão que o prostitui com o olhar? Ódio, desprezo ele diverte-se com a sua magnificência e a futilidade dos esforços dos espectadores em abraçá-lo na amplitude dos seus carates
E ri, ri perdidamente na sua vitrina à prova de assalto, blindada, hermética, totalmente inacessível.
Mas o que mais admiro neste cristal é o seu narcisismo. Como ele sabe olhar de cima, pavonear-se na sua imobilidade, atrair as atenções! Como ele se sente etéreo no aglomerado informe dos seus aduladores!
Suponho que, de noite, sonha que é um deus e vive no Olimpo. Mas este facto, nunca o pude confirmar; ele recusa-se laminarmente a falar com quem quer que seja que não considere à sua altura. Por isso mesmo, mantém-se num obstinado mutismo, numa quietude que só os minerais conseguem conservar.
A propósito, lembro-me agora da indignação que estalou na sala quando um garoto, decerto muito novo ainda, segredou à mãe que "aquilo" que tanto brilhava e o fascinava parecia uma pedra! Que estúpido era o raio do miúdo! Então ele não via que se tratava dum cristal, dum diamante, dum semi-deus? Chamar-lhe pedra era não só uma asneira de todo o tamanho como também uma enorme falta de respeito. Será que os pais não o ensinaram a distinguir as coisas em casa? Esta juventude não tem nenhum tento no que diz
é até caso para pensar se não seria melhor um mundo sem os jovens, esses seres
arrogantes e desprovidos de valores
Mas bem, voltemos ao nosso cristal. Ele hoje está particularmente mal disposto.
É fim-de-semana, o Museu está fechado e neste dia ninguém o vai ver. Por isso, terá de se contentar em ser um simples calhau até à reabertura do Museu.
Embora saiba de antemão que, na próxima segunda-feira, quando as pessoas o vierem admirar, ele lá estará, no seu trono de rei, para as receber
Lisboa, 25/10/79
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