Ode Sinfónica Nº 1
Bela Vénus de ternura revestida, como pôde teu coração resistir ao meu apelo fervente e apaixonado, como pudeste ignorar meu desejo tão forte e sincero?
Ó vida, quão agreste é o teu abraço, quão breve o teu sorriso, um sorriso singelo e opaco que, tal como granito, permanece altivo e insensível à criatividade humana.
Acaso não reparaste na minha súplica muda quando, com chicote sedoso, te demonstrava meu amor?
Que véu negro te cobriu, que te impediu de reparar no meu sorriso, ainda que esboçado, quando, com ternura, te cobri o dorso com sal? Nem terás compreendido também os meus nobres sentimentos quando, velando pela tua felicidade, te cortei a mão esquerda, que era mais comprida que a dextra?
Não entendeste que era para te tornar mais harmoniosa com o resto do teu corpo? Serei sempre incompreendido por ti, minha Musa?
Acaso não te costurei o peito quando disseste que o teu coração sangrava? Não te meti eu numa estufa, a uma temperatura amena, para te proporcionar prazer? Ou será que 110ºC não chegaram para te aquecer?
A todos dizias que tinhas uma constituição de ferro. Não te procurei eu agradar, obrigando-te a dormir numa bigorna? Até tive o cuidado de utilizar o martelo como despertador! E tu continuaste indiferente e passiva
E quando, finalmente, arranjei alento para pedir o teu coração, tu, finalmente desperta para a realidade, choraste de emoção! Entre suspiros e lágrimas, acedeste finalmente! Que pena as pessoas não poderem viver sem coração porque o teu, bem condimentado, enfeitou magnificamente o bolo-rei de ontem à tarde.

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