Balada do Desespero e do Quotidiano
(Á Memória de Almada Negreiros, Dedico este Poema.
Com Amor e Raiva)
Buris, martelos e pilões.
Bocados partidos pelo chão. E aquele ruído!
Maldito barulho infernal, gargalhada luciferana a ecoar nos meus ouvidos e a estarrecer os meus sentidos!
E tu, maldito sejas! Tu, que me enterras a estaca no peito, chamando-me vampiro e invocando o nome de Deus. Dana-te, desgraçado, e chora, chora se conseguires adivinhar o meu Ódio, se tiveres coragem de olhar o meu olhar incendiado.
Tu, praga egípcia, fel apodrecido, tu, que me desferes o golpe certeiro e cru, sabe que hás-de ser meu escravo!
Desde este instante!
E enquanto tu feres eu rio-me, não só com os lábios, mas mostrando bem os dentes aguçados e habituados a morder, a ferir, a dilacerar.
E continuo a rir, gozando o momento futuro e o momento presente, num riso que cheira a morte e exala um odor putrefacto.
Já viste alguém rir assim, ó hipócrita, ó imbecil?
Já sentiste sobre ti a ira raivosa e insana de mil centos de vermes famintos de carne em decomposição?
Ah, desgraçado, move as tuas pernas, move o teu corpo disforme, move os teus miolos queimados, arrasta os teus pés sulfurosos, voa, voa, maldito, a tua fuga apenas existe na tua cabeça nodosa e embrutecida.
Acaso pensas que o meu Ódio, a minha Raiva de cem lim anos, alguma vez te deixarão escapar? Ah! Ah! Ah!
Ouves? Certamente que não, porque se tu, pulha, tivesses ouvidos, cairias morto. Neste momento! Já! Morrerias de horror se conseguisses ouvir estas gargalhadas demenciais.
Mas tu, pulha, não tens ouvidos. Maldito sejas!
Mas, entretanto, não descuides o teu gesto. Estavas a ferir-me, e eu a gozar com o teu empenho, com a tua arte, com a perfeição do teu gesto e o teu olhar imbecilizado.
E chamas-me Arcanjo do Mal e feres-me.
E rogas sobre mim mil pragas ancestrais, e de novo ergues o teu punho e esventras a minha carne. E eu estremeço, a pensar em ti e nas goelas do Cérbero, nas profundezas do Inferno.
Como sabe bem a tua carne retalhada entre os meus dentes,
como me enche de prazer selvagem a tua focinheira esmagada na minha mão, o teu couro cabeludo arrancado pela raiz, vertendo sangue e lágrimas de martírio, exalando cheiro a sofrimento
Maldito, o que fizeste?
Feriste o meu corpo de mármore, mataste-me os sentimentos, quando era eu que te chamava de amigo, que compartilhava contigo a minha alegria, e insistia em partilhar a tua tristeza, os teus fracassos, e mitigar-te os traumas e complexos. Não era eu que te sorria com ternura, que me deitava à lama para te resgatar dos lamaçais da tua vida? E tu tu abusaste da minha amizade, do meu amor, da minha generosidade, e quebraste o meu corpo de pedra, num lance de sadismo quebraste o meu corpo amigo e indefeso, que ainda verteu por ti, no estertor da agonia, uma lágrima derradeira, antes de se afastar para sempre no caminho de que não há regresso.
Ó larva, ó animal, ó leproso mental, quando olhaste, triunfante, para os pedaços, dispersos pelo pavimento, da estátua quebrada, com as mãos embebidas em sangue fresco e vermelho, ainda viscoso, ainda quente, pensaste, ó sarnento tinhoso, que eu já não vivia!
E sentiste-te mais vivo por isso! Verme!
Não compreendeste - e agora é tarde demais - que o que tu mataste foi o teu Amigo, terno e grato, que ingenuamente via em ti um irmão, e confundia o teu cinismo com sinceridade, o teu escárnio com amizade, o teu corpo de besta com um ser humano.
E agora contemplas, extasiado, o teu trabalho vil, sem saberes que a estátua ainda vive, e que em cada fragmento está a Besta, por Deus para sempre amaldiçoada, a Fera que te perseguirá para sempre, como eterno é também o seu ódio e sede de vingança.
Tu, bruto, bexigoso, verme asqueroso, não mataste a estátua - mataste sim aquiele que, com o Amor que irradiava, mantinha a Fera dócil e submissa nas masmorras sombrias do Esquecimento.
E tu, imbecil, partiste a estátua e libertaste-A!
Ah! Ah! Ah! Como reagirás quando sentires o meu bafo pestilento sobre o teu pescoço nu? Como evitarás morrer afogado no teu suor de cobarde, ó bácaro repugnante?
Mas cuidado, controla-te, não quero que morras já. Quero ver-te sofrer, quero ver-te com a respiração sustida pelo medo, pela angústia, pelo terror, até que o horror que sentes te comece a converter em estátua - eu também fui uma estátua, lembras-te? - e então, então hás-de preferi mil vezes as chagas do Inferno e os tormentos dos condenados, hás-de abrir a tua boca fétida sem que saia qualquer som da tua garganta, hás-de sofrer os mais ignóbeis requintes de crueldade no seio do som mais medonho até hoje escutado, o som do Silêncio e hás-de preferir o beijo hediondo da Deusa da sepultura, hás-de amar Satanás e chamar santo ao Huno, hás-de preferir vezes sem conta a companhia dos demónios ao meu Ódio ateu, mas não terás opção! Ah! Sabes que a vingança e o ódio, irmanados no seu apogeu, são sublimes? Podem conduzir ao êxtase da Violência, clímax transcendental que tu me irás proporcionar, a mim, a Besta, que em pensamento te mastigo já o cérebro mas nutrido.
Libertaste a Besta, e agora a Besta sou eu!
Eu sou o Ódio que provém dos enganados, dos ingénuos, dos messias assassinados, dos amigos traídos. Eu sou Imortal, pois sempre haverá gente a sofrer e gente a fazer sofrer. Gente a humilhar e gente a ser humilhada. Eu sou César assassinado, sou Joana d´Arc agonizante na fogueira, sou mil inocentes executados, sou um soldado morto à traição. Mas aquilo que eu mais sou no íntimo e em que tu nunca reparaste é a imagem fiel do teu Amigo, do outro lado do espelho não sabias como ele era na realidade? Olha a Fera, e talvez encontres a resposta, mesmo que para ti já seja tarde demais muito tarde
Lisboa, 2/10/79
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